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28/08/2009

Eurico Miranda

Aline Pereira e José Geraldo Azevedo
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Eurico Miranda e polÛmica sempre foram sin¶nimos durante o tempo em que esteve Ó frente de um dos maiores clubes do Brasil, o Vasco da Gama. Brigas, bate-bocas, desafetos, tÝtulos, amigos e inimigos foram algumas coisas que o ex-presidente do Gigante da Colina colecionou durante a maior parte dos 64 anos de vida. Hoje comandando um escrit¾rio de advocacia que sempre manteve junto com as atividades do futebol, Eurico recebeu a reportagem do site Justicadesportiva.com.br para falar, obviamente, sobre futebol e Vasco da Gama.

 

Com o habitual charuto em mÒos, Eurico falou sobre o atual momento vivido pelo time do coraþÒo, na SÚrie B, e contou como tem se sentido com esta situaþÒo. Ele tambÚm criticou os defensores da adequaþÒo do calendßrio do futebol brasileiro ao europeu. Eurico Miranda ainda aconselhou o Fluminense, lanterna do Campeonato Brasileiro, e contou que nÒo pretende voltar ao Vasco, de onde saiu no ano passado ap¾s sua chapa sair derrotada das eleiþ§es convocadas ap¾s anulaþÒo de pleito anterior no clube.

JD û VocÛ Ú a favor do formado de pontos corridos no Campeonato Brasileiro?

Eurico Miranda û ôSempre houve uma campanha muito forte da mÝdia com essa hist¾ria de pontos corridos. Isso nÒo Ú o que o apaixonado pelo futebol quer. Aqui Ú diferente. VocÛ nÒo tem quer copiar modelos europeus. A ·nica coisa que o Brasil nÒo tem que copiar de ninguÚm Ú o futebol. Se o futebol do Brasil nÒo fosse organizado como muitos dizem, se fosse um paÝs caracterizado apenas por ter excelentes jogadores, nÒo estarÝamos onde estamos. NÒo adianta ter uma boa quantidade de jogadores se nÒo tem um mÝnimo de organizaþÒo. O Brasil Ú cinco vezes campeÒo do mundo por que? Porque tem organizaþÒo e isso foi baseado principalmente nos dois grandes centros, SÒo Paulo e Rio de Janeiro. O torcedor quer ver o seu time sempre campeÒo. Ele quer o seu time com possibilidades de disputar tÝtulo. Quando vocÛ disputa uma competiþÒo em que a parte mais interessante passa a ser vocÛ nÒo ser rebaixado, o torcedor nÒo vai comparecer. Quem estß no meio da tabela nÒo vai ao estßdio ver o seu time jogar. O Estadual do Rio de Janeiro tem muito mais apelo do torcedor e sempre fui contrßrio a esse formato de pontos corridosö.

JD û Por que os jogadores nÒo querem mais ficar no Brasil?

Eurico Miranda û ôO futebol Ú difÝcil. Surgiram algumas medidas que prejudicaram muito os clubes. Os clubes sÒo as cÚlulas do futebol e sem eles nÒo existiria nada. De repente vem uma Lei PelÚ que tirou dos clubes a sua essÛncia, que era a formaþÒo dos jogadores. O sonho de qualquer menino que comeþava era um dia jogar num clube do Rio de Janeiro e jogar no MaracanÒ. Hoje eles pertencem a empresßrios, nÒo tÛm mais ligaþÒo com os clubes por conta de algo que nÒo vejo como um problema, que Ú competir com o futebol europeu. + tÒo antigo o fato de um jogador ir para a Europa. Alißs, foi algo que sempre motivou os clubes para ter mais investimento. Era o ciclo que se renovava. A partir do momento em que houve um corte brusco nisso, em toda a estrutura do futebol, os clubes sofreram muito com isso, e os do Rio foram os mais afetados. Talvez isso tenha levado os clubes cariocas a nÒo estarem hoje conquistando tÝtulos. Se um dia vier a acontecer do Rio perder a hegemonia, se acontecer, nÒo Ú para essa geraþÒo. Quem sabem em 50 anos?ö

JD û VocÛ apontaria algum favorito ao tÝtulo do BrasileirÒo?

Eurico Miranda û ôAcho que tem alguns clubes que tem um certo distanciamento dos outros, em questÒo de elenco, para esse campeonato. O Internacional teve uma caÝda, mas Ú um bom time. Tem tambÚm o Palmeiras e nÒo me surpreenderei se o SÒo Paulo vier a ser o campeÒo. Teve umas mudanþas, mas Ú natural. Tem o AtlÚtico/MG que estß disputando bem, mas nÒo acredito que terß f¶lego para seguir atÚ o fim. O tÝtulo deve ficar entre Inter, Palmeiras e SÒo Pauloö.

JD û Tem vontade de voltar a ser dirigente?

Eurico Miranda û ôNÒo estou longe do futebol. Fui fundador do æClube dos 13Æ e isso foi a grande conquista dos clubes. Acho que agora nÒo tenho que pensar em voltar a ser dirigente, e do Vasco nenhuma chance. Ajudei muito o Vasco e agora outros que ajudem. Servirei muito mais pela vivÛncia que tenho no futebol, como uma espÚcie de consultor. O Vasco nÒo deve abrir mÒo do pouco que sei e, sempre que for chamado, estarei presente. Mantenho sempre contato com quase todos os clubes do Brasil e uma vez ou outra alguÚm vem me pedir uma opiniÒoö.

JD û Na sua gestÒo o Vasco correria o mesmo risco de cair para a Segunda DivisÒo, como acabou acontecendo no ano passado?

Eurico Miranda û ôEu usava uma frase que comigo nÒo havia hip¾tese do Vasco cair para a Segunda DivisÒo, mas claro que os meus crÝticos e æinimigosÆ achavam que, por exemplo, eu falava isso porque usaria de meios nÒo-lÝcitos para impedir uma queda, mas nÒo Ú isso. Quando falava, Ú porque quando se sente que hß a possibilidade do rebaixamento, vocÛ tem que tomar medidas, e elas sÒo administrativas. E tem que se tomar a tempo, nÒo adianta se esperar, porque pode chegar num ponto que nÒo tem mais jeitoö.

JD û O Fluminense ainda tem chances de se recuperar e nÒo ser rebaixado?

Eurico Miranda û ôSe eles tomarem essas medidas (administrativas) nÒo vÒo cair. Tem medidas gerais e medidas especÝficas. VocÛ nÒo pode tomar medida num clube que tomaria num outro. AtÚ porque cada um tem a sua hist¾ria e sua particularidade, e alguÚm que conheþa essas particularidades Ú quem deve tomar uma medida. Nem sempre Ú o presidente do clube. Ele tem que ter a humildade de passar a bola para quem sabe de tudo, mas geralmente Ú o presidente que tem a condiþÒo de tocar o barco vendo pessoas que dÛem suporte. O Fluminense tem que tomar medidas administrativasö.

JD û VocÛ acha certo os clubes trocarem de treinadores quando passam por sufoco?

Eurico Miranda û ôTodo mundo acha que as coisas melhoram com mudanþa de tÚcnico, mas tÚcnico nÒo ganha jogo, ele pode perder jogo. Teve um treinador antigo que disse que nÒo se faz omelete sem ovos. NÒo adianta ter um time sem jogadores, porque o treinador nÒo vai fazer nada. NÒo adianta tambÚm sair contratando jogadores. Numa situaþÒo dessas, vocÛ tem que ter a certeza de que os pequenos detalhes estÒo funcionando, se o gelo chega, se a roupa estß bem lavada, se os vestißrios estÒo em condiþ§es, se a fisioterapia, musculaþÒo e departamento mÚdico estÒo fazendo um bom atendimento, se os ¶nibus chegam e saem na hora certa, se que o serviþo de limpeza estß funcionando quando tem que funcionar, se as viagens estÒo sendo bem programadas. NÒo Ú tÒo simplesö.

JD û EntÒo nÒo seria inteligente fazer o que muitos clubes fazem, atrasando salßrios de funcionßrios que recebem muito menos do que os jogadores?

Eurico Miranda û ôO jogador tem que receber, mas os funcionßrios que ganham muito menos e trabalham nessa parte tem que receber em dia. VocÛ nÒo pode deixar um funcionßrio que ganha salßrio pequeno trÛs meses sem receber. Isso afeta muito. +s vezes, vocÛ pode deixar de pagar um jogador com esses salßrios enormes para manter essa outra parte que Ú fundamental. NÒo justifica vocÛ pagar R$ 200 mil a um jogador e um funcionßrio que cuida da rouparia ganhando um salßrio mÝnimo e meio ficar sem receber quatro meses. A mÝdia quer saber se o futebol estß em dia. Mas o que Ú o futebol? SÒo os jogadores? NÒo, sÒo todos que trabalham com a infra-estrutura necessßria para o futebol acontecer. O jogador quer chegar e ter a sua roupinha limpa e separada no vestißrio. As pessoas precisam entender o trabalho que temos para o time estar em campo. VocÛ pode reduzir os custos, mas nunca vai conseguir reduzir o trabalho. Tem que ter os responsßveis por cada coisa, porque chega na hora do jogo, pode ser atÚ que tenham esquecido do principal, que Ú a bolaö.

JD û Por que o senhor sempre defendeu as federaþ§es de futebol?

Eurico Miranda û ôNÒo se administra futebol pelo computador ou pelo telefone. SÒo as federaþ§es que tÛm que fazer a administraþÒo. Esse Campeonato Brasileiro deve sua realizaþÒo Ós federaþ§es. Coloca a CBF para realizar um jogo e vai ver que ela nÒo tem estrutura. Parece simples organizar um jogo, mas nÒo Ú. Primeiro tem que saber quem vai levar a bola, como vÒo se deslocar para lß, como vÒo dar as condiþ§es para o jogo. A CBF gosta muito de baixar normas, mas quem fiscaliza os clubes, quem cuida, quem trata, que faz e quem leva os clubes a fazerem isso sÒo as federaþ§esö.

JD û Quando era dirigente, o senhor procurava orientar os seus jogadores quanto Ós infraþ§es disciplinares?

Eurico Miranda û ôTodos os meus jogadores eram orientados nesse sentido. Com jogador de futebol tem que falar quem eles respeitam, senÒo fica naquela hist¾ria do acredite se quiser. A melhor figura para falar numa determinada situaþÒo Ú o presidente. A primeira coisa que o jogador vai perguntar e que ele quer saber Ú quem o paga, porque ele quer saber a quem cobrar se ele nÒo receber. E quem paga Ú quem tem a credibilidade com o jogador. AlÚm disso, com ele vocÛ nÒo tem a possibilidade de errar. VocÛ nÒo erra duas vezes. Se vocÛ perder a credibilidade, vocÛ nunca mais recupera. Um jogador que tomasse cartÒo amarelo bobo para nÒo viajar, porque nÒo gostava de viajar, comigo viajava mesmo nÒo podendo jogar, se soubÚssemos que ele forþou o cartÒoö.

JD û VocÛ Ú a favor da aplicaþÒo de multa para jogadores que nÒo apresentam um bom comportamento?

Eurico Miranda û ôTem que ser analisado. +s vezes pode ter sido uma atitude infantil, mas se foi de prop¾sito e nÒo tinha a menor necessidade, acho que deve se punir sim. Existem vßrias maneiras de punir um jogador e talvez o que ele sinta mais Ú no bolso. S¾ que vocÛ nÒo pode aplicar a puniþÒo para inglÛs ver. Existia aquela hist¾ria de punir o jogador com pena pecunißria, mas quem pagava era o clube. Isso vai muito do dirigente. Mas tem que ter cuidado porque pode implicar na legislaþÒo trabalhista, porque nÒo se pode descontar do salßrio do jogador. Tem que ter cuidado, mas sou favorßvel Ó puniþÒo dentro de um critÚrio e nÒo sendo levado pela paixÒo. Na Úpoca que eu era dirigente, profissional nenhum punia meus jogadores, a puniþÒo era minha. Entendo que um profissional nÒo pode punir o outro porque ele tambÚm Ú passÝvel de puniþÒo se ele errar. Das puniþ§es que apliquei, todas elas foram feitas por mim, ninguÚm tinha o poder de fazer isso. Poderiam apenas sugerirö.

JD û Se pudesse voltar no tempo, tem algo que faria diferente?

Eurico Miranda û ôTudo o que fiz faria de novo. Claro e evidente que se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, algumas coisas poderia fazer de maneira diferente. Mas nÒo me arrependo de nada atÚ hoje nÒo. Tudo o que fiz nÒo foi para prejudicar ninguÚm e nem para usufruir pessoalmente daquela situaþÒo. Faria tudo de novo, e olha que fiz muita coisaö.

 

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