Cada vez mais, garotos brasileiros com o sonho de se tornarem jogadores de futebol profissional, se transferem para equipes europÚias antes mesmo de terminarem a vida escolar. Jovens como os laterais gÛmeos, Rafael e Fßbio, formados pelo Fluminense que, em 2005, ainda com 15 anos, jß tinham contrato com o Manchester United/ING, assim como Philippe Coutinho, promessa do Vasco que foi negociado com a Internazionale/ITA em 2008, com apenas 16 anos de idade.
Casos como estes alertaram o Brasil e o Mundo para esse movimento migrat¾rio precoce. Para falar a respeito do tema, o site Justicadesportiva.com.br conversou com um dos mais respeitados brasileiros a trabalhar com divis§es de base em clubes europeus. Ricardo Perlingiero, tÚcnico da equipe sub-15 do Roma/ITA e responsßvel tÚcnico pelo projeto Roma Campus no Brasil, vive hß mais de 10 anos na Itßlia e foi responsßvel por levar ao clube da capital italiana o jovem brasileiro, Caio, que mudou de Juiz de Fora/MG para o Velho Continente aos nove anos, intensificando os debates em torno do trÔnsito de jovens craques pelo mundo.
JD û Assim como o jovem Caio, vocÛ tambÚm se mudou cedo para a Europa. Como foi o inÝcio da sua caminhada e a adaptaþÒo ao futebol profissional?
Ricardo Perlingiero û "Jß sÒo quase 12 anos morando na Itßlia. Fui com 23 anos tentar a sorte no futebol, mas senti que nÒo iria atingir meu objetivo e resolvi iniciar carreira como tÚcnico. + muito difÝcil ter oportunidades como tÚcnico com esta idade, mas, mesmo assim, consegui trabalhar em alguns times da capital, Roma, atÚ que, hß cinco anos, o Diretor TÚcnico do Roma, Bruno Conte, me deu a oportunidade de trabalhar nas categorias de base do clube. AlÚm disso, desde 2008, sou o responsßvel tÚcnico pela clÝnica da equipe no Brasil, o Roma Campus, ap¾s passagens bem sucedidas na Alemanha, -ustria e Itßlia".
JD û Como Ú esse projeto de clÝnicas? Um dos objetivos do Roma Campus seria o garimpo de novos craques?
Ricardo Perlingiero û "O Roma Campus seria como uma col¶nia de fÚrias. A clÝnica tem como objetivo principal passar a metodologia de treinamento que Ú feita na Itßlia, principalmente nas categorias de base do Roma, para o futebol brasileiro. O p·blico alvo sÒo crianþas entre 8 e 14 anos".
JD û E como foi feita a descoberta do garoto Caio?
Ricardo Perlingiero û "O Caio foi descoberto na primeira col¶nia que fizemos no Brasil, em 2008. Durante os treinamentos, ele demonstrou estar em um nÝvel acima dos outros garotos de atÚ 14 anos da divisÒo de base do Roma. Como ele tinha a possibilidade de se mudar para a Itßlia, pela ligaþÒo da famÝlia com o paÝs, resolvemos convidß-lo para um estßgio. Esse nÒo Ú o foco principal do Roma Campus. NÒo Ú uma peneira, mas decidi oferecer essa chance pela qualidade do Caio. O estßgio foi autorizado, mas nÒo fizemos o convite esperando uma oportunidade para federar o garoto como atleta do Roma".
JD û Por se tratar de um menino, imagina-se que a adaptaþÒo tenha sido difÝcil.
Ricardo Perlingiero û "Ele se adaptou muito bem, recebeu o apoio de todas as pessoas do Roma. Eu, particularmente, fiz um pouco o papel de tradutor entre os treinadores, jß que era o ·nico brasileiro por lß. O Caio estß muito determinado".
JD û Qual Ú a sua opiniÒo sobre a transferÛncia de crianþas para o exterior? VocÛ nÒo acha que essa busca pelo sonho de jogar futebol pode atrapalhar o desenvolvimento da crianþa?
Ricardo Perlingiero û "Primeiramente, Ú necessßrio respeitar a lei. A comunidade europÚia e a FIFA nÒo permitem que um jogador abaixo dos 14 anos de idade saia de casa. O garoto tem que contar com a presenþa dos pais. No caso especÝfico do Roma, os pais tem que ter um trabalho fixo no paÝs, morar junto com o filho que Ú menor de 14 anos de idade e o garoto tem que estar matriculado na escola. A grande vantagem dos meninos Ú a facilidade na adaptaþÒo, jß que eles s¾ podem treinar no clube se estiverem com a famÝlia por perto, apoiando. Por outro lado, se a crianþa for para um clube de futebol trabalhar com pessoas que visem o crescimento profissional antes do desenvolvimento pessoal, isso pode gerar uma sÚrie de problemas e Ú preciso ter muito cuidado com esse aspecto".
JD û E o que esperar do futuro do Caio? Dß para esperar alguma coisa dele como atleta profissional?
Ricardo Perlingiero û "O Caio ainda Ú uma crianþa. N¾s estamos acompanhando todo o seu crescimento pessoal, seu amadurecimento, mostrando que o futebol, como qualquer outra profissÒo, exige muito sacrifÝcio, muita dedicaþÒo. O caso dele gerou polÛmica no mundo por se tratar de uma crianþa, mas vale ressaltar que uma coisa Ú vocÛ prometer para um garoto de 10, 15 anos, que ela vai jogar em uma grande equipe de futebol. N¾s nÒo criamos ilus§es. O nosso trabalho Ú totalmente diferente. Estamos seguindo os passos do Caio. Se ele vai ser um jogador profissional ou nÒo, isso ninguÚm sabe, mas estamos dando todas as ferramentas necessßrias para que ele possa se tornar um jogador profissional, seja no Roma ou em outro clube".
JD û NÒo Ú de hoje que o Ûxodo de jogadores profissionais, do Brasil para a Europa, Ú fato comum no cenßrio do futebol brasileiro. Qual Ú a sua visÒo sobre esse movimento? O que a Europa possui, na sua opiniÒo, que motiva tanto os jogadores brasileiros?
Ricardo Perlingiero û "A Europa tem alguns diferenciais em relaþÒo ao futebol brasileiro que fazem toda a diferenþa. AlÚm de terem muito dinheiro para investimentos, eles sÒo muito organizados e sabem como explorar comercialmente o futebol. A verba que vem dos patrocinadores, da televisÒo, do aproveitamento do espaþo fÝsico do clube, tudo isso gera muito dinheiro. A renda que vem da venda de ingressos em uma partida da Liga dos Campe§es da Europa, por exemplo, pode gerar quase 3 milh§es de euros. Os rendimentos neste torneio podem chegar a atÚ 60 milh§es de euros. Os estßdios sÒo modernos, e podem trazer para o clube entre 50 e 100 milh§es de euros por ano. Enfim, eles sabem explorar todo o tipo de retorno que, Ós vezes, o futebol brasileiro nÒo sabe".
JD - Mas, para um jogador que atua em equipes de ponta no Brasil, que jß possuem altos salßrios, compensa se mudar para uma equipe menor da Europa s¾ pelo aumento do salßrio?
Ricardo Perlingiero - "Muitas vezes as pessoas pensam, 'poxa, mas o atleta ganha R$5 milh§es, para que ele vai pensar em ganhar R$10 milh§es?', mas, muitas vezes, nÒo Ú certo que vai receber o salßrio no Brasil. Na Europa, se o clube nÒo pagar ao jogador, nÒo poderß, tambÚm, se inscrever nos campeonatos. Existem essas pequenas diferenþas que, no final de tudo, o jogador vai acabar decidindo pelo o que Ú melhor para ele".
JD û Outro interessante fen¶meno dos dias de hoje, e que pode ser considerado um produto deste Ûxodo de jogadores cada vez mais jovens, Ú a mudanþa de nacionalidade, que permite ao atleta disputar competiþ§es pela equipe nacional de outro paÝs. VocÛ acha que, esta saÝda precoce de jogadores pode influenciar o sentimento de identificaþÒo com a pßtria?
Ricardo Perlingiero û "Eu acho que, em muitos casos, nÒo Ú por identificaþÒo, mas sim, pelo sonho de jogar bola, de ser jogador profissional. Toda crianþa que sonha em jogar futebol profissionalmente, sonha tambÚm em disputar uma Copa do Mundo. E a seleþÒo brasileira Ú a mais difÝcil para se conseguir espaþo. A concorrÛncia Ú muito grande. E essa Ú, muitas vezes, uma opþÒo de certas seleþ§es para aumentar sua forþa. Logo, se junta o ·til ao agradßvel".
JD û Se por um lado, os jovens jogadores estÒo, cada vez mais, se movimentando rumo ao exterior, vocÛ nÒo sente vontade de retornar ao Brasil ap¾s tantos anos na Europa?
Ricardo Perlingiero û "Tenho algumas propostas de equipes brasileiras. Mas, antes de voltar, que tambÚm Ú um sonho, Ú necessßrio ter um projeto sÚrio, que me garanta estabilidade. NÒo adianta vir ao Brasil para trabalhar por dois meses. AlÚm disso, no Brasil, em um perÝodo de 12 meses, vocÛ joga campeonatos de 3 meses, depois fica parado por um bimestre. Na Itßlia, o campeonato dura 10 meses, e existem vßrios outros torneios internacionais, disputados paralelamente, onde se enfrenta equipes famosas mundialmente. NÒo quero abandonar um trabalho de 10 anos. Hoje tenho um projeto com estrutura adequada, com pessoas sÚrias, disciplina e profissionalismo. E isso Ú um diferencial para mim".