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Se tem uma coisa chata e irritante no futebol moderno é essa história de jogador não comemorar gol contra o time que o revelou, como protagonizou Fred - autor de dois gols decisivos - na heroica vitória do Fluminense sobre o Cruzeiro, por 3 a 2, domingo, no Mineirão. Eu entendo que ele deva muito ao time mineiro, que seja torcedor da Raposa e que tenha se emocionado com a manifestação dos cruzeirenses que gritaram seu nome e cantaram sua música antes de a bola rolar. Até aí tudo bem. Tudo muito justo e compreensível. Mas daí a marcar e nem sequer deixar seus companheiros o abraçarem é um pouco demais. Ou seja, cadê o respeito pelo torcedor tricolor que vive às margens da Segundona e do caos em que se transformou as Laranjeiras; ou com os dirigentes do Fluminense que fizeram das tripas coração para o contratarem e o pagam a bagatela de quase R$ 500 mil por mês? Ou eu estou ficando insuportavelmente chato ou os conceitos do futebol mudaram completamente, estão fora da ordem e eu fiquei para trás.
Meu receio é que, do jeito que esses caras trocam de time a cada seis meses, daqui a pouco correremos o risco de ficarmos órfãos das comemorações de gols em partidas nacionais. Ou seja, se Fred trocar o Fluminense por algum clube brasileiro os torcedores podem ir se preparando para ele repetir o gesto de insensibilidade de domingo se marcar contra o Tricolor carioca. E olha que o Fred jogou uma única temporada pelo Cruzeiro e fez apenas 43 jogos com a camisa da equipe mineira antes de se transferir para o Lyon, da França. Então, se ele tivesse sido criado na Toca da Raposa eu imagino que se recusaria a entrar em campo contra o Cruzeiro. Faça-me o favor, Fred!
Uma coisa seria o Nilton Santos não comemorar um gol contra o Botafogo; o Zico contra o Flamengo; o Roberto Dinamite contra o Vasco; o Telê contra o Fluminense; o Rogério Ceni contra o São Paulo; o Falcão contra o Internacional, entre tantos outros craques que se identificaram e passaram a maior parte de suas carreiras defendendo só uma camisa. Esses caras sim, devem gratidão a esses clubes. Afinal, todos eles foram formados, fizeram história e se tornaram ídolos dessas instituições.
Mas também existem aqueles que comemoraram gols contra seus clubes formadores, como Romário ao marcar contra o Vasco; Carlos Alberto diante do Fluminense, Rivellino contra o Corinthians. Seria algum tipo de provocação ou desrespeito desses atletas com seus clubes formadores? Claro que não, muito pelo contrário. Isso apenas mostra o respeito que esses jogadores têm quando vestem uma determinada camisa, o que não significa apagar a história vivida pelo clube rival.
Quando ainda trabalhava no Lance!, lembro de ter lido uma entrevista do meu amigo Caio Barbosa, colunista do Justicadesportiva.com.br, com o técnico Abel Braga, que, à época, dirigia o Flamengo. Questionado por Caio sobre sua relação com o Vasco, Abelão surpreendeu Caio ao dizer que era tricolor de coração e que devia tudo o que tinha, desde sua educação à sua condição financeira, ao Fluminense. Nem por isso o treinador deixou o profissionalismo de lado ou perdeu o respeito de dirigentes e torcedores rubro-negros. A prova disso é que Abel foi campeão carioca e vice da Copa do Brasil com o Flamengo no mesmo ano.
Não comemorar contra o Cruzeiro não foi uma gratidão com os cruzeirenses, e sim uma ingratidão com os tricolores. Portanto, Fred, pare com essa bobagem e comemore seus gols, sejam eles contra qualquer adversário. Até mesmo se um dia forem contra o Flu. Você joga muita bola, é diferenciado, mudou a perspectiva do Fluminense na reta final do Campeonato Brasileiro e encheu o tricolor de otimismo para permanecer na Série A. Essa é a melhor forma de ganhar o respeito do torcedor.